07/05/2026 às 21:04

As fotos que eu não tenho

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Existem fotografias que doem.

Mas, com o tempo, eu descobri que as que mais doem… são justamente as que nunca foram feitas.

Eu trabalho guardando memórias de famílias. Fotografo gestantes, recém-nascidos, aniversários, casamentos, reencontros, começos.

Mas talvez o que pouca gente saiba é que o motivo de eu acreditar tanto na fotografia não nasceu só das imagens que eu tenho.

Nasceu, principalmente, das que me faltam.

A vida inteira eu aprendi muito cedo que o tempo não espera ninguém. Cresci no interior e saí de casa ainda muito nova para estudar. Morei em pensionato, república, casa de parentes, lugares improvisados.

Aprendi cedo sobre saudade. Sobre distância. Sobre ausência.

E talvez por isso eu tenha entendido tão cedo também o valor que uma lembrança tem.

Hoje, olhando para trás, existem momentos da minha vida que eu gostaria de conseguir revisitar com mais clareza.

O rosto das pessoas em fases específicas. Os detalhes da minha casa antiga. O jeito que alguém sorria. As versões das pessoas que já não existem mais do mesmo jeito.

Porque a verdade é que a vida muda o tempo todo.

Os filhos crescem.

Os relacionamentos mudam.

As famílias mudam.

Nós mudamos.

E nem sempre percebemos que um momento era importante enquanto ainda estávamos vivendo ele.

Às vezes a gente só entende depois.

Depois que o bebê deixa de caber no colo. Depois que os pais envelhecem. Depois que a rotina muda. Depois que uma casa fica vazia. Depois que alguém vai embora.

Talvez seja por isso que eu nunca consegui enxergar a fotografia como algo superficial.

Para mim, fotografia nunca foi sobre aparência perfeita.

É sobre permanência.

É sobre poder voltar.

Mesmo nos dias difíceis.

Mesmo depois das mudanças.

Mesmo quando a vida segue caminhos diferentes.

Eu sou divorciada. E ainda tenho meu álbum de casamento. E nunca vou me desfazer dele.

Porque ele conta uma parte real da minha história.

Foi ali que começou a história das minhas filhas. Foi ali que existiu amor, sonhos, planos, vida.

As fotografias não precisam deixar de existir só porque a vida mudou.

A memória continua sendo verdadeira.

E talvez seja exatamente isso que eu mais queira entregar para as pessoas: a possibilidade de não esquecer.

Não esquecer do cheiro de um recém-nascido. Do caos bonito da infância. Do abraço apertado da mãe. Do olhar emocionado de um pai. Da bagunça da própria vida acontecendo.

Porque um dia, inevitavelmente, tudo muda.

E quando mudar… as fotografias ficam.

07 Mai 2026

As fotos que eu não tenho

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