Existem fotografias que doem.
Mas, com o tempo, eu descobri que as que mais doem… são justamente as que nunca foram feitas.
Eu trabalho guardando memórias de famílias. Fotografo gestantes, recém-nascidos, aniversários, casamentos, reencontros, começos.
Mas talvez o que pouca gente saiba é que o motivo de eu acreditar tanto na fotografia não nasceu só das imagens que eu tenho.
Nasceu, principalmente, das que me faltam.
A vida inteira eu aprendi muito cedo que o tempo não espera ninguém. Cresci no interior e saí de casa ainda muito nova para estudar. Morei em pensionato, república, casa de parentes, lugares improvisados.
Aprendi cedo sobre saudade. Sobre distância. Sobre ausência.
E talvez por isso eu tenha entendido tão cedo também o valor que uma lembrança tem.
Hoje, olhando para trás, existem momentos da minha vida que eu gostaria de conseguir revisitar com mais clareza.
O rosto das pessoas em fases específicas. Os detalhes da minha casa antiga. O jeito que alguém sorria. As versões das pessoas que já não existem mais do mesmo jeito.
Porque a verdade é que a vida muda o tempo todo.
Os filhos crescem.
Os relacionamentos mudam.
As famílias mudam.
Nós mudamos.
E nem sempre percebemos que um momento era importante enquanto ainda estávamos vivendo ele.
Às vezes a gente só entende depois.
Depois que o bebê deixa de caber no colo. Depois que os pais envelhecem. Depois que a rotina muda. Depois que uma casa fica vazia. Depois que alguém vai embora.
Talvez seja por isso que eu nunca consegui enxergar a fotografia como algo superficial.
Para mim, fotografia nunca foi sobre aparência perfeita.
É sobre permanência.
É sobre poder voltar.
Mesmo nos dias difíceis.
Mesmo depois das mudanças.
Mesmo quando a vida segue caminhos diferentes.
Eu sou divorciada. E ainda tenho meu álbum de casamento. E nunca vou me desfazer dele.
Porque ele conta uma parte real da minha história.
Foi ali que começou a história das minhas filhas. Foi ali que existiu amor, sonhos, planos, vida.
As fotografias não precisam deixar de existir só porque a vida mudou.
A memória continua sendo verdadeira.
E talvez seja exatamente isso que eu mais queira entregar para as pessoas: a possibilidade de não esquecer.
Não esquecer do cheiro de um recém-nascido. Do caos bonito da infância. Do abraço apertado da mãe. Do olhar emocionado de um pai. Da bagunça da própria vida acontecendo.
Porque um dia, inevitavelmente, tudo muda.
E quando mudar… as fotografias ficam.